Grisalho

O espetáculo findou

com um eu sem um você

E o vazio da solidão se fez pior

do que qualquer teatro,

do que as lágrimas,

e o silêncio…

As memórias melancólicas

E toda nossa história

Como manchas num carpete velho

Que em breve alguém virá lavar

Uma enfermeira bate os saltos no corredor

Com destreza, e torce um esfregão

Onde todas as manchas somem

Nos segundos que se seguem

Ora essa – Pois eu ainda vejo

aquelas manchas no carpete!

– O tempo passou

Mas impregnado ficou

A sua impressão rancorosa…

Lembra quando fizemos aquilo?

Foi como um sonho vívido

Você não sai da minha cabeça

E tudo está tão confuso..

A enfermeira acerta minha medicação

Estou paralisado

Preciso mesmo descansar

Posso descansar com você?

Sinto muito

Miseravelmente

A sua falta…..

O Terceiro Teatro

O terceiro teatro me pegou, e eu nem percebi.
 Não era assim um bicho de sete cabeças, mas era terrível em si. Eu nunca gostei muito de teatro, mas estava ali..
O terceiro teatro era necessário. Um mau depravado que apresentava diariamente. Uma mania interessante de ter o papel principal, de uma peça indecente.
O terceiro teatro veio como um furacão. Levou consigo plantas, árvores, telhados, e o meu coração. Então me vi desnudo, sozinho, violado. Só mais um pedaço de carniça amarrotado.. Derrotado, perdido e ensanguentado.
O terceiro teatro prendeu meu último par de asas. Puxaram os grilhões de suas casas. E eu sorri.

Sorri porque havia acabado um pedaço de mim.

Sorri porque realmente seria melhor assim.

Minhas cordas eu cedi, como marionette. Era isso, ou entender de uma vez, que era o fim.

 Naquela noite dancei, bebi, cantei…
…Mas a mim mesmo eu nunca mais amei.

O sorriso é um placebo que disfarça o caos. É uma dança macabra, mas se você acredita, ela se torna real.

Não é?

HaHahAHAhaHaHAhA!

Dancem macacos, dancem!

Falha

Veja bem, meu bem, eu falhei de novo.

Eu tentei, eu lutei, eu me esforcei.

E falhei.

Onde será que me perdi?

Onde será que me esqueci?

Aquele cara romântico e afetuoso

O que houve com ele?

Distante, desleixado, apático..

Minha tristeza te afeta tanto assim?

Minha individualidade.. É fruto proibido.

Minha insegurança com esse corpo..

Por favor, não olhe para mim.

Esse não sou eu.

Eu não sou feio assim..

Não me chame de amor.

Me deixe quieto.

Não, não. Está tudo bem.

Eu estou bem, sim.

E você ficaria melhor, sem mim..

Me desculpe por estar assim…….

Tranquilo

Acordo mais uma vez ao lado teu. 8AM. Está mais fresquinho hoje. Bocejo eternamente, meu sono passou. Meu coração, já prestes a explodir, paralisa ao fitar seu rosto. Dormindo, tranquilo, com as bochechas rosadas, sobrancelhas relaxadas. Eu resmungo, remexo, me viro. E você me abraça. Meus olhos se enchem de lágrimas..

Naquele momento eu até iria levantar.. Mas não consegui. Mais uma vez você me abraça forte, como uma peça mecânica, e me vejo imobilizado de amor!

Sua respiração quente na minha nuca. Seu ronco baixinho. Seus sons matinais. Onde estão os filhos da puta que vivem melhor do que eu?! E eu me recuso a sair desta cama..

Eu disse que sentia falta de dormir agarradinho contigo, não foi? E você absorveu o recado. Eu acordei feliz. Eu acordei sorrindo.

Precisava levantar.. Mas parece que aliens tem uma força sobrehumana.. Bem, nada de novo por aqui. Pelo menos não estou sendo apertado por um punhado de tentáculos..

…Não que eu não quisesse.

Enfim parece que tudo está se encaixando, novamente.

Eu te amo. Estou tranquilo.

Obrigado por me amar!

Meio roxo.

Me vejo mais uma vez alcoolizado e sozinho.

Casto, alterado e ranzinza.

Caminho sempre em círculos e procuro encontrar você no meu mundinho cinza.

De qualquer forma que for. Seja cansado, sonolento  faminto. Ou seja assim: meio frouxo, meio roxo.

Os vãos dos meus dedos vazios, aonde encaixam os seus perfeitamente.

Amar é como segurar areia do deserto. Você pode agarrá-la, mas ela sempre lhe escapa das mãos..

Dizem que poemas tendem a ser mais sinceros quando se está bêbado. Pois duvido.

Quisera eu sentir intensamente apenas quando louco..

…Louco de amor!

Meu peito se retorce em solidão. Em treva – dessa vida de luta e podridão. Onde está você, de novo?

Não posso passar um dia sem sentir tua falta?

Essa vida boêmia não apaga essa sede de tê-lo ao lado meu.. E sorver de teus lábios um brilho só seu. Um cheiro. Um gosto amargo. Um sorriso torto.

O coração quentinho.

Por favor, me leve contigo e nunca mais me traga aqui! Eu não posso mais passar um dia sem te ver, amor.

Minha cabeça rodopia em um desespero sem fim. Por favor, não me deixe aqui assim, em dor!

Minha luz só brilha ao lado da tua.

Meu corpo só repousa ao lado do teu.

E para aqueles que dizem que nosso amor é calmaria, saiba que é. E isso é o que mais me encanta nisso tudo.

Poder estar sempre tranquilo, pois a abelha sempre retorna à flor.. como eu e você. Grudados, melosos, apaixonados.

Eu só funciono enquanto você respirar.

Eu só respiro enquanto eu puder te amar.

Só eu, e você.

desculpa.

“Está tudo bem?”

Eu não soube responder à essa pergunta.

Será que está tudo bem?

Apenas cansado, haha, isso.

É difícil ser forte o tempo todo.

Fingir ser forte, é ainda pior.

Fingir que nada o incomoda.

Existe um propósito. Mas eu não sei..

E não me arrasto tentando agradar. Não. Nananinanão!

Está tudo bem, está mesmo.

Eu tô cuidando de mim sim. Só sorria, viva sua vida e fique tranquilo.

Falar? Pff.. Olha, eu sequer sei por onde começar. Vamos abstrair, sim?

Eu só queria conseguir fazer aqueles que amo felizes e satisfeitos.

Uma piada? Um erro grave? Algum problema? Tinha que ser eu mesmo. Culpado! Sou sim, culpado.. Eu juro que vou tentar melhorar.

Eu juro que estou tentando.

Eu estou dando tudo.

Não é suficiente? Ah.. Está tudo bem, na próxima eu consigo. Eu juro.

Me desculpe. Eu consigo.

Você acha que eu não consigo? Tudo bem, pode rir. Não tem problema. Eu também acho.

Por que eu não consigo..?

Será que eu nunca vou acertar?

Pelo menos eu te fiz rir. Haha isso mesmo. Olha que miserável esse garoto. Podre. Cômico! Pode rir que eu irei rir junto contigo. Eu também acho.

Algo errado? Não tem nada errado.

O que há de errado comigo?

Você acha que existe algo de errado?

Eu estou tentando.

Me desculpe de novo..

L’ammour

O amor bateu na minha porta, e eu abri.

Dos sonhos e desejos no teu seio eu construí

Uma casa só pra mim.



Nela tinha cores, decoros, amor sem fim.

No amor eu fui bordado como delicada renda

De uma colcha de cetim.



No amor fui construído

Dos ossos à carne macia;

Dia e noite, noite e dia.

Adormecido.



Pálido, colérico, exibido

O sangue nos teus olhos reluzia

Enquanto sapatilhas bailavam

Sob um galho retorcido.



Dos céus ao inferno congelante;

Do amor eu fui filho, fui marido, fui amante;

À tua pele, teu cheiro,

Um delírio apaixonante.



E a neve que salpica alegremente;

Há de me encaixar, solenemente

Dentre as entranhas dessa família

Que é a gente.

Asas

Eu,

Filho do enxofre e do arsênico

Torno a cair debruçado

Em gélido olhar de metileno;



Sempre andando em círculos,

Sorvo do sangue e do veneno

Desse castiçal enfeitiçado

E torno à tê-lo em pensamento;



Ora, se não livre, demônio de candura

Em teus braços meu medo se habitua

À fugir de volta pronde veio;



E mesmo em ti empoderado,

Carnes, tripas, putrefato

desce das asas brilho eterno

Meu sereno inferno admirado.



Me deito em teu peito triunfante,

E sob à voz do necromante

Vê-lo de novo é o anseio

Desse coração delirante.

Uivos

Um barulho horripilante me acordou aquela noite.

Meu corpo estremeceu em desespero. Um ar gelado que cortava meus ossos, como faca quente na manteiga. E um uivo que ecoou na escuridão à fora.

Um cão? Espírito? O vento? Minha mente me sabotava à medida em que as sombras revoavam nas paredes.. Árvores chacoalhavam, garrafas rolavam. A calha estalava, nervosa. Um temporal, imagino.

(Havia um temporal também, dentro de mim.)

E naquela hora, eu quis você.

Como as noites pedem o luar, como as ninfas pedem água fresca. Como minha pele arrepiava sob o frio lacinante.

Eu precisava de você.

Como eu preciso de ar para respirar – E na hora não respirava, mesmo – eu precisava de você.

Com a pele escura e rachurada, os cabelos grisalhos, o sorriso manso. Olhos díspares, tais como os meus. Os pêlos ouriçados no ressalvo da noite. As presas ferais. Os braços cálidos. As mãos firmes. Você.

Tentei mentalizar que era apenas seu som habitual. Um uivo triste e saudoso, de passado terrível, e futuro aterrorizante. Isso me acalmou, mas não por completo.

Eu quis te chamar com toda a minha força, meus pulmões queimavam de pavor extremo, meu coração pulsava alucinado. “Será que passo desta noite sem você?” – Imaginei enquanto me encolhia nas cobertas.

Ora, pois não gosto de me mostrar frágil. O problema é que isso trouxe à tona minhas piores fraquezas…

…E eu, que sempre fui independente, rebelde e inconsequente, queria ser protegido.

Por uma fração de segundo, ou quatro horas. Protegido por você.

O meu abrigo mais seguro era teu peito quentinho. E ainda tinha o seu cheiro nos lençóis. Doeu.

Me encolhi um pouco mais.

Parece que será mais uma noite solitária, não é mesmo?



((Uma prosa sobre amor e ansiedade))

04:22

  • Perdi a hora!
  • Ah, pelo amor de deus.

    Meus olhos ardentes rastejavam rumo às pálidas paredes sem vida. Pareciam queimar de cansaço.
  • Dia difícil, não é?
  • Difícil é meu sobrenome, o dia foi péssimo..
  • Me parece que você está incomodada.
  • Eu estou. Parece que faço tudo errado. E que folgado do caralho!

    Dei outro trago no cigarro. Meus nervos pediam misericórdia.

    –  …Também, você tinha que surtar né?

    Ela cruzou os braços em revolta, mas não falou nada. Ficamos alguns minutos em silêncio esperando ver a faceta branca do bom senso. Não a vimos.
  • Você pediu por isso não foi?
  • …Bom, é.
  • Então agora aguenta.

    Na medida em que apagava o cigarro, ela trincou os dentes e deixou a sala, batendo os saltos com violência. Ora, há tempos não via Ine com os cadarços desamarrados. Me pergunto como ela chegou a esse ponto..
  • Ninguém vai sentir minha falta, Niwa. Vocês estariam melhores sem mim.

    Dito isso, ela desapareceu dentre as sombras ao redor, como uma esponja suga o sabão, como alguém afunda na imensidão do mar.. E partiu.